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Esses dados valem ouro

As informações que estão na sua secretaria ajudam a definir as ações e metas educacionais

Cleuza Acosta

Ilustração: Mario Kanno
Ilustrações: Mario Kanno

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Modelos de tabelas de dados

Reportagem

Especial Planejamento 2014

Dados escolares familiares ao dia a dia do gestor, como os referentes à avaliação, movimentação e situação do aluno - geralmente requisitados anualmente pelo Ministério da Educação e pelas secretarias de Educação -, são bem mais do que simples levantamentos numéricos. Quando olhados com atenção, eles se transformam em instrumentos valiosos para detectar problemas, definir encaminhamentos, analisar variáveis e definir metas. A semana pedagógica é uma excelente oportunidade para a equipe discutir e analisar esses números (leia reportagem).

Se num ano muitos alunos deixaram a escola ou ficaram retidos, é preciso fazer alguns questionamentos e verificar quais as possíveis variáveis do cotidiano escolar que justificam esse número. O passo seguinte é planejar as ações que devem ser implementadas antes de o problema se agravar e as que evitarão que ele aconteça no futuro. Para mostrar como usar essas tabelas, Roberta Panico, coordenadora pedagógica do Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária (Cedac) e consultora de NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR, fez uma simulação dos índices de uma unidade que atende alunos da primeira etapa do Ensino Fundamental (leia quadro abaixo). Ela levantou questões que a equipe gestora pode fazer com base neles e os possíveis caminhos que a equipe gestora pode trilhar. Dica geral: se os números analisados isoladamente parecerem pequenos ou irrelevantes, transforme-os em porcentagem. Você verá como eles revelam a situação da escola e tornam visíveis os problemas, facilitando a tomada de decisão (como no segundo quadro, que traz uma parte de uma tabela de turmas da segunda etapa do Ensino Fundamental).

Como organizar e interpretar as tabelas

Acompanhe nesta simulação dos dados de uma escola as questões que podem ser levantadas pela equipe gestora, a análise e as sugestões de encaminhamento para resolver os problemas detectados.

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Questões
Quantos alunos foram matriculados no 1º ano? E no 5º? A diferença é de 20 alunos. Esses dados correspondem à média de matrículas dos últimos anos? Por que esse número diminuiu ao longo da escolaridade?
Encaminhamento
A não manutenção do número de matrículas revela um funil de reprovação ou evasão e pode significar que a escola não está dando conta da aprendizagem de todos os alunos. É preciso verificar se os professores estão ensinando apenas para os "mais sabidos" e deixando de oferecer apoio aos que apresentam dificuldades.

verde

Questões
Por que o 2º ano tem um índice de reprovação maior do que os outros? Ele corresponde à antiga 1ª série, período de alfabetização das crianças. O professor regente tem a experiência necessária nessa área?
Encaminhamento
O diretor pode atuar na distribuição das salas aos professores de acordo com o preparo e a experiência de cada um. Há locais em que a escolha é regida por lei. Mesmo assim, é papel do diretor conversar com a equipe, compartilhar as
informações sobre a movimentação escolar com o grupo e propor tomadas de decisões que favoreçam todos, principalmente os alunos.

rosa

Questões
Quais são os motivos da evasão dos alunos nesta escola? Por que as crianças deixaram de frequentar as aulas?
Encaminhamento
Vale a pena o diretor ir em busca dessas respostas na comunidade e, principalmente, procurar as famílias para saber o que levou as crianças a abandonar a sala de aula. De posse dessas informações, ele também deve discutir com a equipe quais seriam as possibilidades para diminuir esse número. Uma variável possível a ser considerada: será que os alunos desistiram porque não estavm conseguindo aprender?

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Questões
Os alunos que precisam de correção de fluxo repetiram de ano na própria escola ou já vieram de outras unidades nessa situação? O que é possível fazer para que o número total de alunos com defasagem idade/série não seja tão elevado (18 crianças)?
Encaminhamento
Pensar em um projeto específico para esses alunos (como grupo de apoio, por exemplo), de modo que, ao fim do ano letivo, todos eles tenham as condições necessárias para serem reclassificados, como autoriza a Lei de Diretrizes e Bases. Analisar os motivos da repetência.

Análise bimestral

Encarar os problemas e as dificuldades ao longo do ano letivo ou em seu término para buscar soluções e estabelecer metas e melhoria para o ano seguinte é bem mais eficiente do que deixar a situação da escola só ser revelada nas avaliações externas. Pensando nisso, Clécio Lima Sousa, diretor da EM Mariano da Silva Barroso e diretor-formador da rede pública de ensino de Pindaré-Mirim, a 250 quilômetros de São Luís, orienta a equipe docente a olhar os resultados das avaliações no fim de cada bimestre e a se questionar: se o ano acabasse hoje, quantos alunos seriam reprovados? Quantos teriam abandonado as aulas? Por quais motivos isso teria acontecido?

"Verificamos que, no caso de nossa escola, faltava a integração entre a direção, a coordenação e o corpo docente na definição de metas e também a responsabilização pelos resultados de aprendizagem dos alunos. Nas discussões, foram levantadas variáveis que podem ter influenciado o desempenho dos alunos, como a estrutura das escolas e o envolvimento das famílias", diz Clécio. Desse modo, foi possível retraçar metas e mudar o curso dos problemas encontrados antes que eles se tornassem definitivos.

Algumas secretarias solicitam esses números periodicamente e incentivam os gestores a utilizá-los na melhoria da qualidade de ensino. Em Taboão da Serra, município da Grande São Paulo, as escolas preenchem o quadro de situação dos alunos no início do ano letivo. Depois, ao longo dos meses, as informações coletadas e tabuladas seguem norteando o trabalho das equipes. "Se a retenção aumenta, a tabela ajuda a enxergar o problema. Então, uma equipe de formação vai à escola debater as possíveis causas e propor soluções", afirma Ricardo de Oliveira Queiroz, diretor de divisão de Ensino Fundamental da Secretaria de Educação do município.

Providências da rede

Ilustração: Mario Kanno

O levantamento feito pela escola também ajuda as secretarias a detectar a necessidade da implantação de políticas. "Caso o rendimento geral de uma disciplina caia, formadores, diretores e docentes se reúnem para discutir novas abordagens", afirma Ricardo. Segundo ele, a atenção com os números é uma das responsáveis pela diminuição da retenção escolar, de 8 para 4%, que vem ocorrendo desde 2005.

Dados de aprovação, reprovação e movimento também são solicitados anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), sempre após o Censo Escolar, no primeiro semestre. "Os diretores colocam informações da escola no site do Sistema Educacenso e, com elas, tiram-se as médias sobre as taxas de evasão, repetência e promoção, usadas para medir o fluxo escolar. Essas, por sua vez, são usadas como uma medida de produtividade do sistema educacional", explica Maria Inês Pestana, diretora de Estatísticas da Educação do Inep. Tempos depois, os diretores recebem a nota do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e das metas do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) de sua escola - calculados com base no quadro apresentado por cada unidade.

Quem já usou os dados da escola para definir mudanças aprovou. Veronice Coelho, formadora de diretores da Secretaria Municipal de Educação de Parauapebas, a 834 quilômetros de Belém, conta que é possível medir os avanços de um período para o outro e perceber o que falta melhorar. Ela conta que, em 2009, a principal meta na rede foi continuar o trabalho começado dois anos antes para combater a repetência e a evasão: "Para isso, avaliamos as tabelas dos últimos anos e estabelecemos metas para a Secretaria e para cada escola junto com o diretor. Dependendo dos problemas que detectamos, tomamos medidas personalizadas para cada unidade."

Para a segunda etapa do Ensino Fundamental

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Questão
Qual a disciplina que mais reprova alunos?
Encaminhamento
Comparar a quantidade de aulas dadas e do número de frequência dos alunos da disciplina que mais reprova. Existe alguma relação entre falta de professor e alunos e o índice de reprovação da disciplina? Se existe, valeria a pena uma boa conversa com o professor e com os alunos da classe. É preciso discutir com formadores e docentes para pensar em novas abordagens para o ensino da disciplina.

amarelo

Questão
Os índices de distorção idade/série são altos. O que vem produzindo estes números ao longo da escolaridade?
Encaminhamento
Fazer um levantamento do histórico da vida escolar desses alunos desde a época do ingresso na escola. Quantos são matriculados desde a Educação Infantil? Quantos vieram transferidos de outras unidades? Levantar com a equipe pedagógica (do 1º ao 7º ano) o que faz a escola produzir esses índices. Planejar projetos de correção de fluxo.

Obs. A porcentagem da aprovação e reprovação é calculada, sobre o número de matriculas finais e a dos índices de evasão, transferência e distorção idade-série sobre as iniciais.

Em 2007, os índices de abandono escolar para as turmas de 5ª e 8ª séries da área urbana eram de 2,8 e 11,1%, respectivamente, e os de reprovação, 6,7 e 20,1%. "Apostamos em uma maior articulação das instituições com a comunidade e juntos avaliamos o risco social que poderia levar as crianças a sair da escola. Para esse trabalho, contamos com o apoio do Conselho Escolar e do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente", diz Veronice.

Em 2008, os números já mostraram que a realidade estava mudando: os de evasão caíram para 2,1 e 9,2% (5ª e 8ª séries da área urbana), e os de retenção, para 2,6 e 10,2% (igualmente). "Notamos também que faltava investir mais em formação dos educandos e, agora, já começamos a notar melhoras significativas nos índices de desempenho. Por isso, acredito que, se não olhamos para as tabelas e não traçamos metas claras, nossas ações ficam soltas", afirma ela.

Dez questões para pensar

Os números são instrumentos que levam à reflexão sobre diversas questões. Aqui, alguns pontos que podem ser analisados pela equipe gestora: 

1 É importante comparar os resultados dos alunos de uma mesma série e perguntar: há uma divisão desigual de turmas (classes "fortes" e "fracas"?) Qual sala reprova mais? 

2 Os alunos estão evadindo ou pedindo transferência? Será que os pais estão insatisfeitos? A comunidade passa por problemas? 

3 De que maneira você e a equipe gestora podem contribuir para elevar o índice geral de aprovação? Será que falta acompanhar mais de perto o desempenho dos alunos ou o trabalho de professores e coordenadores? 

4 Há necessidade de montar grupos de apoio para os alunos com mais dificuldade de aprendizagem? 

5 Os professores do 5º ano estão considerando que na próxima etapa da escolaridade as crianças passarão por diversas mudanças e é necessário prepará-las para que não caiam nas estatísticas de reprovação e evasão ao passar por essa transição? 

6 Que ações pedagógicas podem ser implementadas nas últimas séries da primeira fase do Ensino Fundamental de modo a facilitar a adaptação dos estudantes ao segmento seguinte? 

7 Qual é a disciplina que mais impacta os índices de reprovação? Não seria o caso de reunir os professores e planejar uma nova abordagem? 

8 Ao longo dos anos, a evasão pode estar relacionada a dificuldades de adaptação às novas situações que os estudantes encontraram pelo percurso? 

9 Que metas podem ser traçadas e implementadas para melhorar os índices globais no próximo ano? 

10 Você, diretor, está olhando os números da tabela adequadamente ou apenas por burocracia?

Quer saber mais?

CONTATOS
Clécio Lima Sousa
Inep
Roberta Panico
Secretaria Municipal de Educação de Taboão da Serra, R. Elisabetta Lips, 66, 06763-190, Taboão da Serra, SP, tel. (11) 4788-5822
Veronice Coelho Carneiro

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Publicado em GESTAO ESCOLAR, Edição 005, Dezembro 2009/Janeiro 2010.
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