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Leitura para toda a escola

Ler todos os dias foi a chave para alfabetizar e formar uma comunidade "louca por livros"

Paula Nadal

RECEITA QUE DEU CERTO  Com a equipe motivada e um projeto bem montado, a escola investiu em um espaço de leitura. Foto: Marcos Rosa
RECEITA QUE DEU CERTO Com a equipe motivada e um projeto bem montado, a escola investiu em um espaço de leitura. 
Foto: Marcos Rosa

Em dezembro de 2005, quando Cláudia Zuppini Dal Corso e Silvana Aparecida Santana Tamassia foram chamadas para assumir o comando da EMEIEF Cata Preta, no município de Santo André, na Grande São Paulo, a situação era desanimadora. Setenta alunos tinham sido reprovados e 58,7% dos matriculados chegavam ao último ano do primeiro ciclo sem estarem alfabetizados. Para piorar, no fim de 2006 foi divulgado o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) da escola: apenas 3,9, ante à média da rede municipal de 4,8. Ambas já haviam trabalhado juntas em 2003 na EMEIEF Jardim das Maravilhas, também em Santo André, e, por formarem uma boa dupla de gestão, foram convidadas a resolver os problemas da Cata Preta. Hoje, por decisão da comunidade, a escola chama-se Carolina Maria de Jesus, nome de uma escritora que morava numa favela e cuja história se assemelha à dos moradores da região.

Assim que tomaram posse, as gestoras estabeleceram como meta alfabetizar todos os alunos de até 8 anos de idade e melhorar a linguagem escrita dos 1,2 mil estudantes com a implementação de um grande projeto de incentivo à leitura, o Programa Lendo e Aprendendo. Em meados de 2007, as duas receberam um reforço na equipe, o da assistente pedagógica Gilne Gardesani Fernandez, que contribuiu para melhorar ainda mais os resultados que já apareciam. Toda a comunidade foi envolvida: professores, funcionários, alunos e pais passaram a ter momentos diários de leitura e a escola ganhou novos espaços dedicados aos livros. Com o apoio da Secretaria Municipal de Educação e graças a uma parceria com a pasta de Cultura, Esporte e Lazer, a equipe investiu na formação dos professores. As atividades foram sistematizadas: diretora e coordenadora pedagógica montaram tabelas com as avaliações dos estudantes para discussão nas reuniões pedagógicas semanais e nos conselhos de ciclo. "O que fizemos foi pensar sempre em prol do aluno", afirma Silvana. "O envolvimento da equipe diretiva permitiu que os resultados fossem efetivos", observa Cláudia.

Gestoras Nota 10

COMUNIDADE ENVOLVIDA  Pais e mães foram incentivados a participar e ler para os filhos até a caminho da escola. Foto: Kris Knack
COMUNIDADE ENVOLVIDA Pais e mães foram incentivados a participar e ler para os filhos até a caminho da escola. Foto: Kris Knack

Com os números animadores, Silvana Tamassia inscreveu o Lendo e Aprendendo no Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10 e a Cata Preta foi a vencedora na categoria Escola, em 2007. O dinheiro da premiação se transformou numa nova biblioteca e duas professoras foram encarregadas da organização do espaço. Uma delas chegou a desenvolver um sistema eletrônico de cadastro e empréstimo de exemplares, o que facilitou o trabalho de todos.

Segundo Ana Amélia Inoue, selecionadora do Prêmio Victor Civita, o trabalho afinado entre direção e coordenação pedagógica foi fundamental para que o projeto funcionasse. "As gestoras detectaram que os alunos não sabiam ler e definiram o caminho, o que é exatamente o papel da equipe diretiva. Os planejamentos de aula deixaram de ser burocráticos e o envolvimento da comunidade escolar diminuiu a resistência ao programa", afirma. Em 2008, os esforços foram recompensados: os alunos de 7 e 8 anos da Carolina Maria de Jesus dominavam leitura e escrita. O Ideb de 2007, divulgado no fim do ano passado, chegou a 4,9 - índice superior aos 4,3, que, segundo o projetado, a escola deveria atingir em 2009.

Este ano, o comando da Carolina Maria de Jesus mudou de mãos, mas a nova equipe rebatizou o projeto: Biblioteca Viva. Elizete Cristina Carnelós Buzeto, a atual diretora, conta que uma das propostas para 2009 é ampliar o acervo com livros sem texto para a Educação Infantil, infanto-juvenis para o segundo ciclo do Ensino Fundamental e crônicas e cordel para a Educação de Jovens e Adultos. Já foram organizados horários semanais em que os professores acompanham os alunos à biblioteca para que eles escolham os títulos que desejam levar para casa e no momento cultural destinado aos funcionários estão previstas leituras de gêneros diversos. "Em parceria com contadores profissionais, fazemos contação de história para alunos e funcionários e queremos estender essa atividade também para os pais", diz Elizete.

A seguir, você conhece o projeto vencedor do Prêmio Victor Civita.

Lendo e Aprendendo

OBJETIVOS
• Gerais Estimular nos alunos o gosto pela leitura, ampliando o repertório para o trabalho de leitura e escrita, e envolver toda a organização escolar num projeto de leitura e escrita.
• Para a direção e a coordenação Promover a formação constante dos professores e estabelecer metas que pudessem ser atingidas por todo o grupo.
• Para os alunos Desenvolver o comportamento leitor e escritor para ampliar o repertório com vistas às produções escritas.
• Para os professores Ler diariamente para os alunos, possibilitar o acesso a diferentes materiais de leitura e a ações de estímulo ao comportamento leitor e realizar projetos didáticos de produção textual.
• Para os funcionários Ler diariamente e valorizar os espaços de leitura.
• Para os pais Participar de momentos de leitura com as crianças.

ANOS 
Todos, com foco no 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental.

CONTEÚDOS
• Diferentes propósitos de leitura.
• Linguagem escrita e produção de texto.
• Produção de texto oral com destino escrito.
• Características de diferentes gêneros literários.

TEMPO 
Três anos.

MATERIAL NECESSÁRIO
Livros literários e informativos de qualidade, fantoches, malas de histórias, almofadas, mesas e armários para a organização do acervo.

DESENVOLVIMENTO
1ª ETAPA Reconhecimento e planejamento
O programa começou com as gestoras analisando as necessidades da escola com base nos registros de avaliação dos anos anteriores, em questionários respondidos pelos professores e em avaliações escritas feitas pelos alunos do primeiro ciclo. Em três meses, o novo projeto pedagógico foi elaborado, com metas simples de ser cumpridas - como ler em voz alta para alunos e funcionários todos os dias, fazer com que os alunos lessem um livro por semana, estimular o reconto das histórias lidas em sala de aula, organizar atividades individuais e coletivas de produção escrita, estruturar um projeto coletivo de produção de um livro.

2ª ETAPA Novas propostas de formação
Com o projeto pedagógico em mãos, a equipe gestora organizou a formação para os professores em encontros semanais de uma hora, mais uma reunião de quatro horas a cada dois meses. Nos primeiros, eram abordados temas que surgiam nas avaliações, como hipóteses de leitura e escrita, o que os alunos aprendem quando o professor lê para eles ou quando leem sozinhos, produção e revisão de texto, ortografia e pontuação. Nas análises bimestrais, eram expostas e discutidas teorias e apresentadas novas atividades para a sala de aula. Tudo isso fez com que os envolvidos passassem a considerar importante a leitura dentro e fora da escola.

3ª ETAPA Envolvimento da comunidade
Os pais foram convidados a conhecer o projeto e incentivados a ler para os filhos ainda não alfabetizados ou a pedir que as crianças maiores recontassem as histórias lidas na escola. Com o tempo, pais e mães que levavam os filhos para a aula tiveram a ideia de ler para eles enquanto aguardavam o ônibus ou durante o trajeto. Os funcionários não ficaram de fora: diariamente, durante 30 minutos, o pessoal de limpeza, administração, cozinha e manutenção interrompia suas atividades para ouvir romances, contos e crônicas lidos por alguém da direção. Cláudia e Silvana selecionaram textos cujo enredo tivesse interesse para eles, como o livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. No início de cada reunião pedagógica, os professores ouviam a diretora ou a coordenadora pedagógica ler textos e trechos de livros. Com o passar do tempo, cada professor ficou encarregado de escolher um livro, ler para os colegas um trecho e compartilhar com o grupo sua opinião.

4ª ETAPA Criação de espaços de leitura
Logo no começo, a equipe diretiva percebeu que, mesmo com um projeto pedagógico bem estruturado e pessoas motivadas, era preciso criar espaços apropriados para as novas atividades. Assim, os acervos distribuídos entre as classes foram organizados numa só sala equipada com mesas e armários. Para deixá-la mais atraente, almofadas, pufes e fantoches passaram a fazer parte da decoração. Acessar e escolher os livros se tornou mais fácil quando os exemplares foram catalogados por gênero e identificados com etiquetas coloridas. Uma funcionária, antes auxiliar de serviços gerais, recebeu capacitação e tornou-se a responsável pela biblioteca. Em 2008, a escola ganhou uma nova biblioteca, construída com o dinheiro recebido pelo Prêmio Victor Civita, e o atendimento passou a ser feito por três professoras de suporte.

5ª ETAPA Formação de parcerias
Apoio e parcerias com órgãos municipais e entidades do bairro ajudaram a manter os docentes em constante atualização e a ampliar a bagagem cultural dos alunos. Todos os professores do primeiro ciclo participaram do programa Ação Escrita, desenvolvido pela Secretaria de Educação de Santo André com base no Programa de Formação de Professores Alfabetizadores, o Profa, do Ministério da Educação. Um dos principais resultados dessa capacitação foi a montagem de malas de histórias, com livros de gêneros literários específicos - ficção, contos de fadas, romances e histórias de terror - para percorrer as salas de aula e ampliar o repertório das crianças. A Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Lazer também oferecia, a cada dois meses, uma contação de histórias com um profissional, na biblioteca da escola e aberta a toda a comunidade. As gestoras contaram ainda com a atuação do Conselho Tutelar, que foi à casa dos estudantes e, em apenas um semestre, conseguiu fazer com que 150 dos 400 faltosos voltassem a frequentar as aulas. As crianças foram incentivadas pela direção a participar de oficinas culturais no contraturno e de treinamentos esportivos graças a uma parceria com um centro comunitário vizinho.

6ª ETAPA O papel da equipe diretiva
A equipe gestora acompanhou de perto todos os programas desenvolvidos e fez observações nos registros entregues todas as semanas pelos professores. À coordenação pedagógica, coube ainda o planejamento das reuniões com os professores - semanais, bimestrais e anuais - e a criação de um grupo de discussão na internet para discutir e avaliar avanços e problemas.

AVALIAÇÃO
Todas as atividades de leitura e escrita realizadas na escola foram registradas pelos professores. Cláudia e Silvana tabularam esses dados em planilhas subdivididas por itens de avaliação. Nos exercícios de produção de texto, eram observadas a pontuação, a ortografia, a organização do enredo, as características do gênero proposto e a sequência temporal. Para os menores que ainda não eram alfabetizados, a avaliação se dava por meio de um ditado com a finalidade de verificar se a criança avançava no conhecimento sobre o sistema de escrita. As planilhas eram detalhadamente analisadas nas reuniões pedagógicas, assim como os avanços e as dificuldades de cada agrupamento de alunos, para planejar em conjunto o desenvolvimento de novas atividades e os programas de formação dos docentes. Ao fim de cada semestre, a escola promovia uma grande avaliação coletiva de leitura e escrita com todos os alunos do Ensino Fundamental. Os textos produzidos pelas turmas se transformaram nos capítulos de um livro coletivo.

Quer saber mais?

CONTATOS
Cláudia Zuppini
, clauzuppi@yahoo.com.br
EMEIEF Carolina Maria de Jesus, Estr. Cata Preta, 810, 09170-000, Santo André, SP, 
tel. (11) 4455-5297
Silvana Tamassia, silvanatamassia@yahoo.com.br 

Especial Leitura Literária

 

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Publicado em GESTAO ESCOLAR, Edição 001, Abril 2009.
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