Por que realizar projetos didáticos

| Ensino Fundamental - Maria Inês Miqueleto
Os projetos didáticos têm o objetivo de ensinar um conteúdo específico. Cabe ao coordenador pedagógico estudar com os professores quais serão os materiais utilizados e responder a dúvidas sobre por que e como fazer. Foto: Gabriela Portilho

Os projetos didáticos têm o objetivo de ensinar um conteúdo específico. Cabe ao coordenador pedagógico estudar com os professores quais serão os materiais utilizados e responder a dúvidas sobre por que e como fazer. Foto: Gabriela Portilho

Uma distinção muito importante que os professores devem fazer durante o planejamento é o que são projetos temáticos e o que são projetos didáticos.

Os primeiros costumam envolver toda a escola e, geralmente, estão voltados para um tema específico ou uma data comemorativa. É comum a escola toda trabalhar o ano inteiro com o tema água ou meio ambiente, por exemplo. Os projetos didáticos, por sua vez, são elaborados para trabalhar conteúdos específicos e devem possuir um produto final, isto é, um resultado concreto de uma série de tarefas desenvolvidas ao longo de todo o trabalho.

A meu ver, os projetos didáticos são mais adequados para os propósitos pedagógicos da escola, uma vez que dificilmente perdemos de vista o objetivo de ensinar e aprender um conteúdo específico. No caso dos projetos temáticos, pode acontecer de os professores proporem diversas atividades divertidas, mas que não contribuem para a aprendizagem de algum conteúdo.

Exemplos de projetos didáticos

Aqui na minha escola, trabalhamos com uma série de projetos ligados ao programa Ler e Escrever, da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Eles são voltados para turmas do 1º ao 5º ano.

Um deles é o “Quem reescreve um conto, aprende um tanto”. O objetivo é ensinar um determinado gênero textual. Entre as atividades que as crianças desenvolvem está ler contos, reescrevê-los para desenvolver o comportamento leitor e pensar nas questões ortográficas e na pontuação. O produto final consiste em cada dupla de aluno montar um livrinho com as reescritas e ilustrá-lo. Os destinatários são os alunos mais novos.

Outro projeto que desenvolvemos é o “Cantigas populares”. Em sala, os alunos cantam as canções junto com a professora, que propõe atividades de reescrita coletiva. A finalidade é fazer com que as crianças reflitam sobre o sistema de escrita, colocando em jogo suas hipóteses. O produto final pode ser um livro com as cantigas favoritas da turma. Seu destino é a biblioteca da escola.

O que eu acho mais importante ressaltar é que os professores devem conhecer todas as etapas dos projetos didáticos antes de colocarem em prática. No entanto, mais que desenvolver o trabalho, os docentes precisam saber o porquê de aquele projeto estar ali naquele semestre e para aquele ano/série. Eles devem ter clareza do que as crianças aprenderão com ele, como administrar o tempo e o espaço para as atividades na rotina da semana.

E qual é o papel do coordenador pedagógico nessa história? Bom, para que tudo isso aconteça, devemos estudar junto com a equipe todo o material durante as Aulas de Trabalho Pedagógico Coletivo (ATPC) e responder a dúvidas sobre o que, por que e como fazer de determinada forma.

E vocês, coordenadores, orientam seus professores para desenvolverem projetos temáticos ou projetos didáticos? Como vocês fazem isso?

Beijos, Maria Inês


TAGS: , , ,

Deixe um comentário

Se a aprendizagem pode ser qualificada, as situações didáticas devem mudar!

| Educação Infantil - Leninha Ruiz
Não há razões para insistir em uma situação didática se ele não faz mais sentido para qualificar a aprendizagem das crianças. Foto: Gabriela Portilho

Não há razões para insistir em uma situação didática se ele não faz mais sentido para qualificar a aprendizagem das crianças. Foto: Gabriela Portilho

Uma das coisas bacanas em Educação é que estamos o tempo todo estudando, revendo e reestruturando nossos saberes.  Quando estudamos, tematizamos e refletimos coletivamente sobre nossa prática. Assim, podemos deixar de fazer algumas coisas e incorporar outras, respaldadas nas concepções teóricas e pesquisas da área.

Nas formações sempre acontecem as discussões mais calorosas em relação às práticas e encaminhamentos das situações didáticas. Nada como uma boa reflexão com pessoas comprometidas com seu fazer pedagógico! Sempre costumo deixar claro para os professores que adoro mudar de opinião, desde que haja bons argumentos para essa mudança. Não existe razão para um coordenador pedagógico insistir em querer que algo seja perpetuado se isso não faz mais sentido.

Um exemplo de mudança

Uma das mudanças que fizemos na escola foi na avaliação dos projetos de Natureza e Sociedade do grupo de 5 anos. No primeiro semestre, como parte do projeto “Caminhos do Rio”, as crianças pesquisavam sobre a importância da água, as características do rio Paraíba e o seu percurso pelas cidades do Vale do Paraíba. O projeto era bem bacana, mas as professoras achavam que era muito conteúdo a ser trabalhado nos primeiros seis meses. Nessa época, ainda entram muitas crianças novas, há muitas trocas de período, inúmeras demandas de início de ano, inclusive de adaptação à escola e às atividades de rotina.

Depois de muitas reflexões coletivas, achamos que seria melhor deixar apenas um projeto sobre animais no segundo semestre que atenderiam aos objetivos de Natureza e Sociedade e tiramos o “Caminhos do Rio” do planejamento do primeiro semestre. Alguns conteúdos desse eixo seriam abordados em atividades ocasionais e o foco maior seria nos eixos de Movimento, Leitura e Identidade e Autonomia.  Foi uma boa mudança, pois os argumentos eram em função das aprendizagens das crianças.

O que fazer quando os argumentos não se sustentam?

Uma professora novata na Educação Infantil, mas bem experiente com os anos finais do Ensino Fundamental, assumiu uma turma de 4 anos. Logo que chegou à escola, nos contou que investiu na compra de vários DVDs de filmes da Disney. Ela disse que sabia que as crianças gostavam muito e queria programar duas sessões de cinema semanalmente.

Pedi que ela aguardasse o planejamento dos diferentes eixos e a elaboração do quadro de rotina semanal. Enquanto isso, orientei que utilizasse o mesmo planejamento de suas colegas de nível.

Quando ela participou da elaboração dos planejamentos, ainda tentou encaixar os DVDs, mas logo viu que os objetivos e os conteúdos do que estava sendo programado não contemplavam esse tipo de filme.

Para esclarecer as dúvidas dessa professora, agendei um momento de atendimento individual para conversarmos sobre o papel da escola na Educação Infantil. Trocarmos ideias sobre os conteúdos de aprendizagem das diferentes turmas e o quanto essas crianças, que moram em casas pequenas, sem quintal e em avenidas muito movimentadas, passavam o período contrário à escola em frente da TV. Mostrei-lhe nosso acervo de literatura e o trabalho que fazíamos com os clássicos e falei também sobre a importância de assegurar a hora da história, o reconto e o faz de conta diariamente.

Bem, como é uma professora bem comprometida, hoje ela ri da situação e está compreendendo cada vez mais quantos projetos e sequência bacanas podemos fazer com os pequenos para atender às suas demandas de aprendizagem. Na verdade, temos que eleger apenas alguns já que não há tempo para realizar todos. Atualmente, ela sempre brinca: “Querer fazer só porque as crianças gostam não vale, não é Leninha?”.

Fazer escolhas, eleger conteúdos de aprendizagem mais significativos, definir projetos e sequências considerando o real papel da escola é responsabilidade de toda a equipe. No entanto, cabe ao coordenador mediar essa reflexão. Por isso, estudar e se atualizar sempre é nosso dever, vocês não acham?

Um abraço, Leninha


TAGS: , ,

1 Comentário

Uma proposta de rotina para o coordenador pedagógico

| Ensino Fundamental - Maria Inês Miqueleto
Organizar a rotina ajuda a ter clareza de quais são as verdadeiras funções do coordenador pedagógico. Foto: Gabriela Portilho

Organizar a rotina ajuda a ter clareza de quais são as verdadeiras funções do coordenador pedagógico. Foto: Gabriela Portilho

Assim como os professores devem organizar a sua rotina semanal, o coordenador pedagógico também deve cuidar para sistematizar o seu trabalho. Em minha opinião, isso é essencial para eu ter clareza sobre quais são as minhas verdadeiras funções.

Para me planejar, fiz uma lista de tudo o que devo fazer na escola:

  • Preparar as reuniões de Aulas de Trabalho Pedagógico Coletivo (ATPC)
  • Desenvolver as reuniões de formação
  • Estudar para realizar as formações
  • Observar as aulas dos professores
  • Acompanhar o ensino e o processo de aprendizagem dos alunos a partir dos portfólios e dos cadernos
  • Organizar registros
  • Fazer devolutivas aos professores das aulas assistidas, da análise dos portfólios e dos cadernos de alunos
  • Providenciar documentos da área pedagógica, pedidos pela Diretoria de Ensino
  • Participar de reuniões com a equipe gestora
  • Participar das reuniões de orientações técnicas para coordenadoras na Diretoria de Ensino
  • Preparar a reunião de pais, entre outras.

Com a lista em mãos, dividi as atividades em quais acontecem semanalmente, como as reuniões de formação, e quais são feitas com um intervalo de tempo maior, como os encontros com os familiares. Dessa divisão, nasce meu planejamento, que deve ser refeito sempre para dar conta de atender a todas as demandas no tempo certo.

Registro tudo o que pretendo fazer e passo para a diretora da escola, que toma ciência das minhas atividades. Ao final da semana, elas são colocadas em meu portfólio para posterior avaliação da equipe.

E vocês, coordenadores, como organizam sua semana de trabalho?

Beijos, Maria Inês


TAGS: ,

3 Comentários

Os desafios de organizar as visitas de campo na Educação Infantil

| Educação Infantil - Leninha Ruiz
Diante da insistência dos pais em acompanhar seus filhos nas pesquisas de campo, a escola teve que criar regras para organizar a logística do passeio e garantir os objetivos pedagógicos. Foto: Gabriela Portilho

Diante da insistência dos pais em acompanhar seus filhos nas pesquisas de campo, a escola teve que criar regras para organizar a logística do passeio e garantir os objetivos pedagógicos. Foto: Arquivo pessoal/Leninha Ruiz

Quem não se lembra dos passeios que fez quando era criança? A ida ao zoológico, a museus, a exposições culturais… Em geral, boa parte das pessoas só visita esses lugares quando a escola leva. Mas é claro que esse não é o único argumento que nos faz colocar essas atividades no planejamento do ano letivo.

As saídas da escola precisam, antes de tudo, ser significativas. É importante que as crianças aprendam com a experiência de ver “in loco” o que está sendo objeto de pesquisa, por exemplo, nas aulas do eixo de Natureza e Sociedade. Nada como se impactar com o real tamanho da girafa, ver o elefante se alimentando e as brincadeiras dos macacos num passeio ao zoológico, não é mesmo?

Nos últimos anos, no entanto, organizar esses passeios foi ficando cada vez mais complicado, porque os familiares têm se sentido mais inseguros em deixar seus filhos participarem. Muitos ainda enxergam suas crianças como bebês que ainda não devem sair sem eles e temem os perigos das estradas cheias de carros, ônibus e caminhões e aumento da violência das cidades.

As tentativas de atender às famílias e aos objetivos pedagógicos

Durante algum tempo, apesar da insistência dos professores e da minha em realizar o passeio apenas com os pequenos, visto que tínhamos objetivos pedagógicos específicos, alguns pais continuavam pedindo para acompanhar seus filhos, pois, segundo eles, além de ser uma oportunidade de passear, ficariam mais tranquilos. Com nossa constante negação, vimos que foi caindo o número de crianças que participavam. Por isso, decidimos organizar passeios que permitissem a ida dos responsáveis.

Foram várias as tentativas de organização. Uma delas foi agendar o passeio em um sábado, assim a família toda poderia participar. No entanto, isso entrava em conflito com o foco da nossa pesquisa de campo, porque muitos iam com o objetivo de apenas ter um momento de lazer. Além disso, ainda tínhamos muita dificuldade de organizar toda a logística para atender um número tão grande de participantes e acontecia de famílias não voltarem no horário combinado, irem para a lanchonete ou desviar a rota para fugir de um chuvisco.

Por essas razões, voltamos a planejar o passeio para um dia de semana e limitamos a um acompanhante adulto por criança. Dessa forma, cada professor conseguiria acompanhar sua turma e fazer as intervenções planejadas para a pesquisa de campo. Essa ação facilitou muito, porém, as reclamações não pararam. As famílias continuaram insistindo que gostariam de levar irmãos, avós, tias, mesmo sendo durante a semana.

Estabelecendo novas regras para os passeios

Como queríamos assegurar o maior número de alunos nas visitas, consideramos as solicitações das famílias e retomamos o assunto na escola.

Depois de muitas trocas de ideias com os professores, com a diretora da escola e alguns familiares, resolvemos contratar uma empresa especializada em excursões e que conta com monitores que organizam não só as crianças, mas também os pais, utilizando apitos, coletes de identificação e técnicas de agrupamento. Assim, não tivemos mais problemas com famílias que se desgarravam do grupo e só retornavam bem depois do horário combinado para a saída.

É claro que precisamos levar em consideração que o preço do passeio aumentou depois dessa decisão. No entanto, a segurança oferecida pela empresa e o profissionalismo na organização do passeio convenceu as famílias a aceitar. Aliás, nenhuma criança nunca deixou de participar por não ter como pagar, pois sempre reservamos parte do lucro das festas e outras arrecadações da escola para custear os pequenos que não poderiam pagar.

Para assegurar os propósitos didáticos, cada professor se comprometeu em sempre fazer uma reunião com os pais ou responsáveis que participarão antes do passeio. Nesse encontro, ele passa toda a orientação do que precisa ser observado em campo, entrega um roteiro para cada um juntamente com um bloquinho para que anotem alguns dados sobre as características dos animais. Essas informações serão utilizadas para a roda de conversa e para a elaboração dos textos informativos em sala de aula.

Até o momento, essa prática tem dado certo, porque fica claro para as famílias que o objetivo da saída é fazer pesquisa de campo e não passear por passear.

E na sua escola, como vocês organizam as visitas de campo com as crianças?

Um abraço, Leninha


TAGS: , , , ,

1 Comentário

Construindo a proposta de rotina semanal

| Ensino Fundamental - Maria Inês Miqueleto
O planejamento semanal do professor ajuda o coordenador pedagógico pensar em qual será o foco das observações em sala de aula. Foto: Gabriela Portilho

O planejamento semanal do professor ajuda o coordenador pedagógico pensar em qual será o foco das observações em sala de aula. Foto: Gabriela Portilho

Na escola, costumo orientar os professores a fazer um planejamento do trabalho que desenvolverão durante a semana nas diferentes áreas do conhecimento. Chamamos esse documento de proposta de rotina semanal.

Para facilitar a visualização geral das atividades, seguimos uma estrutura para o registro do que será feito nos dias seguintes. Combinamos que receberei esse documento dos docentes todas as segundas-feiras para que eu possa acompanhar o que eles farão.

Ao longo do ano, sempre retomo o que deve constar nessa rotina, principalmente com os profissionais novatos. Abaixo, darei um exemplo.

Como oriento o registro do planejamento na área de Língua Portuguesa:

  • Peço para aos professores que distribuam no quadro de horários da turma em que lecionam as disciplinas de acordo com a carga horária de cada uma. Assim, haverá um horário fixo para todo o ano.
  • Para a semana, o professor deve planejar atividades com os diferentes eixos de conteúdos: Leitura, Produção de Texto, Reflexão sobre o Sistema de Escrita e Linguagem Oral. Esses conteúdos devem aparecer especificados na planilha.
  • Após o registro dos conteúdos, deve aparecer em cada aula qual será a modalidade organizativa (atividades permanentes, projetos didáticos ou sequências didáticas) com a qual o docente vai trabalhar.
  • Nas rotinas, também é necessário aparecer como o professor vai organizar os alunos para a aula (atividade individual ou agrupamentos produtivos). Além disso, ele deve indicar como será a variação das atividades, por exemplo, numa sala em que nem todos os alunos são alfabéticos.
  • Se necessário, os docentes podem utilizar o verso do quadro para fazer registros, por exemplo, de materiais pedagógicos que utilizará na semana ou, então, justificar algo que tenha acontecido na semana anterior e que tenha comprometido o planejamento do período em que estamos.

Penso que o planejamento semanal da rotina faz com que os profissionais pensem na gestão do tempo. Assim, eles conseguem ter clareza do que será feito em cada aula, qual é o objetivo da atividade, como ela será realizada e com quais recursos.

Para mim, como coordenadora pedagógica, as propostas de rotinas dos professores são muito úteis, pois as utilizo para planejar minha semana levando em consideração o foco que devo ter na observação de cada aula.

E vocês, coordenadores, como orientam o registro do planejamento semanal dos professores?

Abraços, Maria Inês


TAGS: , , , ,

4 Comentários

Por que assegurar práticas sociais nas situações didáticas

| Educação Infantil - Leninha Ruiz
Na escola, é preciso deixar claro que ainda existem práticas que não estão de acordo com a realidade das nossas vidas, como não poder conversar na hora do lanche. Foto: Gabriela Portilho

Na escola, é preciso deixar claro que ainda existem práticas que não estão de acordo com a realidade das nossas vidas, como não poder conversar na hora do lanche. Foto: Gabriela Portilho

Depois de um encontro de formação, um professor veio me procurar com uma dúvida. Ele não estava entendendo porque eu insisti na importância de assegurarmos a prática social nas diferentes situações didáticas na sala de aula. Na visão dele, tudo o que a escola faz já é uma prática desse tipo, uma vez que a maioria das situações acontece da mesma maneira há séculos. Por que, então, eu martelava para que aquele grupo de professores planejasse minuciosamente as atividades de aprendizagem com esse propósito, se já era um caminho natural?

A pergunta que ele me fez veio muito a calhar, pois só assim pude me dar conta da confusão que um conceito mal definido estava causando naquele grupo de profissionais. Depois desse questionamento, achei importante deixar claro alguns pontos.

O que é prática social?

É o conjunto de ações, de encaminhamentos e de modo de ser e viver que rege nossa vida. Dentro da escola, queremos que as atividades de aprendizagem estejam o mais próximas possível de como é na realidade. Exemplificando: no dia a dia, fazemos cálculos diversos para administrar nosso dinheiro, para saber quanto tempo cada compromisso vai durar no planejamento da semana ou para estimar o quanto de pães e bebidas precisaremos comprar para o café da manhã. Ou seja, realizamos cálculos porque temos problemas a resolver e decisões a tomar.

É claro que, na Educação Infantil, não podemos começar propondo contas para saber quanto de dinheiro vai sobrar no final do mês. Isso não faria sentido para os pequenos. Nessa faixa etária, a prática social que deve permear a maioria das atividades é a brincadeira, porque a linguagem da criança por excelência é o faz de conta. Sabendo disso, podemos propor todos os tipos de situações didáticas se ajustamos os momentos de aprendizagem utilizando jogos e desafios. Dessa forma, conseguimos assegurar que a criança vai mobilizar todos os seus esquemas para participar da atividade.

Existem coisas que só a escola faz

Acho que foi essencial deixar claro que ainda permanecem algumas falsas ideias e práticas na escola que não fazem parte das práticas sociais.

Dizer que na hora do lanche não pode conversar porque é hora de comer. Isso é falso, pois nada é mais social do que se reunir para almoçar, jantar ou tomar café. Nessas horas, é muito comum papear ou tomar decisões importantes do trabalho. Nesse caso, o que podemos orientar os pequenos a fazer é conversar à vontade enquanto estão sentados se alimentando, desde que mastiguem com a boca fechada.

Pedir para as crianças andarem em fila quando precisam ir de um lugar para o outro.  Todas as vezes que levo os alunos ao zoológico fico perplexa de ver várias escolas fazendo os pequenos andarem por todas as ruas (daquele espaço enorme!) em fila e com as mãozinhas uns nos ombros do outro.  É tão mais fácil pedir para que deem as mãos de três em três, enquanto o professor anda ao lado para acompanhá-los. Isso é prática social, porque é assim que andamos com nossos filhos pelas ruas, de mãos dadas e do lado deles.

Dividir a turma em vários grupos para elaborar cartazes de um tema e colocar todos no mesmo mural. Quantas vezes já vimos propostas assim: todos pesquisam sobre um determinado assunto e a tarefa é fazer um cartaz, por exemplo, sobre a dengue. Depois do final da atividade, o professor expõe tudo o que foi feito no mesmo lugar, como o mural da sala. Mas se a ideia de elaborar esse material é informar a comunidade sobre os perigos da doença, qual é o sentido de não espalhá-los por toda a escola e pedir para as famílias fixá-los em alguns pontos de comércio do bairro?

Acredito que o nosso desafio como educadores é sempre pensar numa maneira de configurar a situação didática como uma brincadeira ou como seria na vida real, sem subestimar as crianças. Um bom exemplo são as pesquisas que fazemos no eixo Natureza e Sociedade, porque as crianças se interessam muito por detalhes da vida de um grupo de animais.  Nesse caso, é possível registrar, fazer um portfólio, elaborar um mural com diferentes produtos informativos (desenhos, fotos, textos, etc.) ou organizar um seminário oral para apresentar para interlocutores reais, como os colegas e as famílias.

Certamente os pequenos vão se envolver muito mais nas propostas didáticas se o propósito está claro para elas, seja ele lúdico ou que mobilize sua curiosidade.

Bom, voltando ao professor do início… Depois que conversamos, ele riu e disse que concordava com os pontos que levantei. No outro encontro, ele nos brindou com várias histórias e “causos” do que ele próprio já fez ou fizeram com ele que só acontece na escola.

E na sua escola, as práticas sociais estão sendo privilegiadas no planejamento das situações didáticas?

Um abraço, Leninha!


TAGS: , , , ,

2 Comentários

Uma conversa com os professores sobre a observação de aulas

| Ensino Fundamental - Maria Inês Miqueleto
A observação das práticas docentes em aula é um trabalho de parceria para contribuir para o avanço das aprendizagens das crianças. Foto: Gabriela Portilho

A observação das práticas docentes em aula é um trabalho de parceria para contribuir para o avanço da aprendizagem das crianças. Foto: Gabriela Portilho

Uma das funções do coordenador pedagógico é acompanhar e avaliar o ensino e o processo de aprendizagem. Esse acompanhamento pode acontecer de várias formas, por exemplo, por meio da análise dos portfólios das turmas e dos cadernos dos alunos e também observando as aulas dos professores.

Este ano, recebi alguns professores novos e aproveitei para falar com todos sobre esse assunto na reunião de planejamento que aconteceu no início de março. Deixei claro que o principal objetivo da observação não é vigiar o trabalho deles, mas criar uma cumplicidade entre a prática docente, minhas orientações e o avanço da aprendizagem das crianças.

Ou seja, trata-se de parceria, no sentido de que o coordenador deve saber orientar os professores quantos às suas práticas ao mesmo tempo em que respeita seus saberes. Em contrapartida, os docentes devem estar abertos para ouvir as orientações do coordenador, se dispondo a dialogar, negociar e fazer com que sempre prevaleça o que é melhor para as crianças.

Nesse sentido, as observações de aulas tornam-se estratégias de formação dos professores, pois com elas é possível levantar temas para as Aulas de Trabalho Pedagógico Coletivo (ATPC), além de contribuir para o desenvolvimento profissional docente.

Como organizo as observações das aulas

Foco: sempre recorro à rotina semanal de trabalho dos professores para planejar quais aulas vou observar. Isso me possibilita criar um foco nas observações, até porque não é possível observar tudo a todo o momento. Por exemplo, vou assistir a um professor fazendo uma atividade de revisão de texto coletiva. Então, concentro minhas atenções no aspecto que permite às crianças refletirem sobre o sistema de escrita.

 Procedimento: para assistir a uma aula, sempre levo alguns materiais, por exemplo, o Guia de Planejamento e Orientações Didáticas do professor, da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, as expectativas de aprendizagem, a rotina do professor e uma folha para os registros.

Registro: registrar é imprescindível, pois é a partir das minhas anotações que faço a devolutiva da aula para o professor. Tenho um roteiro de observação e, no verso, escrevo as orientações e sugestões para o docente.

Devolutiva: depois de acompanhar a aula, sento com o professor para dar uma devolutiva. Ela consiste em uma conversa sobre o que observei, sempre apoiada em meus registros. Faço algumas perguntas aos professores, como: “Qual o objetivo da atividade que você aplicou?” e “O que as crianças aprenderam com ela?”. Pensar nessas questões faz que o professor reflita sobre sua prática. A partir dessa discussão, faço sugestões e orientações para ele. Assim, esse momento também se torna de formação.

Após a conversa, peço para o docente ler o que registrei e assinar. A diretora da escola também toma ciência desses registros. Depois disso, arquivo no meu portfólio.

Como vocês podem verificar esse não é um trabalho simples e rápido. Penso que a observação de sala de aula só tem sentido para o coordenador se ela tem um foco, procedimentos adequados, registro e, principalmente, devolutiva para o docente.

E vocês, coordenadores, como desenvolvem essa função?

Beijos, Maria Inês


TAGS: , , ,

3 Comentários

Rotina: por que é tão importante planejar o dia na Educação Infantil?

| Educação Infantil - Leninha Ruiz
Nas turmas de Educação Infantil, a rotina deve ser muito bem planejada para dar conta dos cuidados com as crianças pequenas e garantir a realização de atividades de cada eixo de aprendizagem. Foto: Gabriela Portilho

Nas turmas de Educação Infantil, a rotina deve ser muito bem planejada para dar conta dos cuidados com as crianças pequenas e garantir a realização de atividades de cada eixo de aprendizagem. Foto: Gabriela Portilho

Saber o que vai acontecer é um privilégio que todos queremos, não é mesmo? Assim, poderíamos evitar alguns incidentes e estar mais preparados para certas ocasiões… No entanto, isso também poderia tirar a graça do inesperado e da surpresa, ambos tão normais durante nossa vida. Por isso, acredito que é ideal haver um equilíbrio: precisamos ter certo controle sobre o que e como as coisas vão acontecer, mas também ter algumas boas surpresas ou saber que o que planejamos pode dar errado alguma hora.

Essa realidade também se aplica à Educação Infantil quando pensamos no planejamento do dia a dia dos pequenos. Nós, que trabalhamos com as crianças, sabemos que quanto menores elas são, mais organizada deve ser sua rotina, porque a própria criança funciona como “um reloginho”, como costumam dizer.

Turmas de 1 e 2 anos

Nas turmas de 1 e 2 anos, por exemplo, existem horários específicos para troca de fralda, alimentação e repouso. A partir da organização dessa rotina, saberemos em que momentos podemos realizar brincadeiras, jogos e trabalhos de artes, literatura e parque. Portanto, primeiro a escola tem que assegurar o bem estar físico das crianças para depois encaixar as outras atividades, considerando as expectativas de aprendizagem de cada eixo.

Existem atividades que precisam acontecer todos os dias, como a hora da história, a roda de cantoria, atividades de movimento e de oralidade. Já os trabalhos com desenho, pintura, modelagem e outros podem acontecer apenas de 2 a 3 vezes por semana.

O mais importante nessa faixa etária – e o que fará as crianças se acostumarem com a rotina – é que o professor deixe bem claro a programação do dia, algo mais ou menos assim: “Hoje é segunda-feira, dia de fazer atividade com tinta! Vamos fazer uma meleca nas mesinhas. Em cada uma, vou colocar três cores de tinta e vocês vão misturar com as mãozinhas, certo?”.

Turma de 3, 4 e 5 anos

Nas turmas de 3, 4 e 5 anos, as crianças já saberão o que e quando vai acontecer se o professor estabelecer uma rotina compartilhada com elas. Quantas vezes eu já não escutei as famílias comentarem: “Desde cedo, essa menina está louca para vir à escola porque hoje é dia  de  pintura de na maquete que confeccionaram!”. Nessa idade, é normal que os pequenos acompanhem atentamente a programação dos dias e cobrem que tudo o que estava previsto aconteça.

Aqui, esclareço uma questão: ter definido que nas terças é dia de fazer atividade de pintura, por exemplo, é a rotina, enquanto a novidade é como e onde será essa pintura. Neste ponto, entra o planejamento do professor, que consiste em elaborar uma sequência diversificada utilizando o chão do pátio, o muro dos fundos, o uso de mesinhas deitadas nos corredores, papeis fixados (temporariamente) nas árvores e brinquedos do parque e muitas outras variações que assegurem o objetivo da atividade, mas traga desafios e propostas diferenciadas.

Ao elaborar a rotina, o professor pode considerar fazer uma intercalação entre as atividades que exigem maior concentração com outras durante as quais as crianças ficam mais dispersas. Por exemplo: depois de uma atividade na qual o desafio é a leitura de nomes, realizar uma brincadeira do eixo de movimento; ou ainda, depois do momento do parque, propor uma roda de cantoria na qual as crianças podem descansar e voltar a se concentrar.

Acredito que, quando planejamos uma rotina mais equilibrada, alternando os diferentes momentos e considerando a necessidade das crianças de se movimentar bastante, o clima da sala de aula fica mais tranquilo e acontecem menos conflitos e mais cooperação entre as crianças.

E vocês, coordenadores, como ajudam seus professores a organizar a rotina na Educação Infantil?

Abraços, Leninha


TAGS: , , ,

7 Comentários

Proporcionar momentos para o professor refletir é função do coordenador

| Ensino Fundamental - Maria Inês Miqueleto
Nos estudos que desenvolvemos em ATPC, faço os professores pensarem sobre suas práticas a partir de alguns questionamentos.

Nos estudos que desenvolvemos em ATPC, faço os professores pensarem sobre suas práticas a partir de alguns questionamentos. Foto: Gabriela Portilho

Considero muito importante que os professores reflitam sobre a prática pedagógica que desenvolvem no dia a dia da sala de aula, de pensar como ele está fazendo e o que pode mudar. As aulas de trabalho pedagógico coletivo (ATPC), comandadas pelo coordenador pedagógico, são momentos privilegiados para isso.

Pensando nisso, na reunião de planejamento deste ano, propus aos professores que pensassem sobre suas turmas, os conhecimentos de cada aluno e as expectativas de aprendizagem do ano/série. Também pedi que respondessem, por escrito, à seguinte questão: “Enquanto gestor do processo ensino e aprendizagem que ocorre na sala de aula, o que você pretende fazer para que todos seus alunos evoluam?”.

Entre as respostas, objetivos do tipo: “Preciso investir mais na revisão de texto coletiva” e “Preciso investir mais na leitura fluente”. Digitei o que cada um escreveu e, numa reunião seguinte de ATPC, devolvi as respostas aos docentes e fiz a leitura das proposições de ações individuais, para fazer com que todas as crianças avancem na aprendizagem.

Entretanto, o trabalho não se esgota nesta etapa! Da minha parte, assumi o compromisso de acompanhar as propostas e auxiliar cada um deles. Meu objetivo é fazer uma retomada, ao final do semestre, para que cada um reflita sobre suas propostas e o que foi ou não possível realizar.

Nos estudos que desenvolvemos em ATPC, também faço os professores pensarem sobre suas práticas a partir de alguns questionamentos. Por exemplo, quando eles são levados a analisar produções de textos das crianças, peço para que respondam: “Quais são os saberes dessa criança para com a produção de texto?” e “Quais são as condições didáticas que o professor deve oferecer para que as crianças se tornem melhores produtores de texto?”. Ou mesmo “O que o aluno poderá aprender com uma determinada atividade?” e “Se a atividade é desafiadora para o aluno?”.

Os questionamentos geram reflexão e discussão entre os professores sobre o que e como se ensina, além de trocas de experiências.

E vocês, coordenadores, proporcionam aos professores reflexões sobre suas práticas? Compartilhe conosco suas experiências nos comentários abaixo.

Beijos, Maria Inês


TAGS: , ,

2 Comentários

Formação de professores – O que priorizar no planejamento?

| Educação Infantil - Leninha Ruiz, Uncategorized
Observando a rotina nas diferentes turmas, fiquei impressionada como as crianças passam muito tempo esperando

Observando a rotina nas diferentes turmas, fiquei impressionada como as crianças passam muito tempo esperando. Foto: Gabriela Portilho

Trabalhar em Educação é um privilégio. Mesmo! Adoro esse começo de ano letivo, momento de reinício, novos alunos, novos professores e, é claro, novos olhares. Não sei se por conta das experiências vividas, se porque estudamos mais, aprendemos com os bons professores ou com as respostas das crianças – talvez um pouco de tudo isso –, mas nosso olhar fica mais exigente a cada ano e, em todas as turmas, queremos que os encaminhamentos sejam coerentes com a concepção de aprendizagem e de criança que temos.

Entretanto, a realidade não é assim. Somente por meio da formação e da reflexão sobre a prática é que poderemos qualificar os fazeres pedagógicos. Alguns conteúdos precisam ser foco das formações, pois passamos a achar que é imprescindível que aconteçam em todas as turmas. Como, então, elencar quais são fundamentais?

Na condição de coordenador(a), o grande trunfo que temos é poder acompanhar os encaminhamentos de cada professor. Encontramos ótimos trabalhos, mas também atuações que deixam muito a desejar. Em uma escala de prioridades, muito particular, estabeleci alguns conteúdos essenciais:

  • Gestão da sala de aula: saber encaminhar as atividades, envolvendo  todos os alunos, com propostas bacanas; as crianças a par do que farão; sem tempo de espera e sem regras tolas, como não poder conversar ou sair do lugar; e saber fazer as mudanças na rotina, intercalando momentos de maior concentração com momentos mais descontraídos.
  • Relacionamento e liderança junto às crianças: o professor precisa conhecer cada aluno, saber como lidar com conflitos, desafios e dificuldades que um grupo naturalmente gera.
  • Conhecimento dos saberes das crianças e dos conteúdos de aprendizagem: saber como se aprende e que tipo de atividade é estruturante para abordar cada conteúdo .

Dentro desses três grupos de conteúdos, existem inúmeros aspectos. Em uma escola em que estou fazendo assessoria, por exemplo, ficou visível que muitas tarefas podem ser aperfeiçoadas. Mas, seguindo a premissa básica de um projeto de formação: “é preciso escolher um aspecto de cada vez”, minha decisão foi eliminar o tempo de espera das crianças.

Observando a rotina nas diferentes turmas, fiquei impressionada como as crianças passam muito tempo esperando. Esperam todos chegar para começar uma atividade, depois esperam todos terminar para fazer outra, fazem fila e andam em fila, como se isso existisse! Até no refeitório, elas precisam esperar todas as turmas chegarem para serem servidos; só podem ir para o pátio brincar quando todos da turma terminam o lanche e, no fim do período, precisam ficar sentadinhas com suas mochilas esperando os pais – algumas crianças chegam a ficar 30 minutos sentadas esperando e sem fazer nada. Se nós, adultos, já achamos muito chato ficar esperando, imagine querer que crianças de 2 a 5 anos o façam?

Sei que precisarei ser muito cuidadosa para trazer esse assunto à tona, pois certamente os professores acreditam que tudo isso é necessário para organizar o trabalho e, principalmente, para controlar as crianças. Então, minha intenção é reverter a situação: introduzir o momento de atividades diversificadas tanto na entrada como na saída das crianças; refletir sobre a necessidade da fila, quando e como ela acontece na vida real; discutir com o grupo a questão da autonomia das crianças; e, paulatinamente, estabelecer uma rotina mais dinâmica em que o trabalho acontece o tempo todo sem precisar que o grupo inteiro o faça ao mesmo tempo.

Agora que já identifiquei o maior problema e visualizo como deve ser na prática do dia a dia da escola, vou me dedicar a planejar como tornar tudo isso observável para os professores, tematizar os melhores encaminhamentos de dentro da própria escola e elaborar com o grupo de professores uma reorganização da rotina e do papel do professor e da criança. Ufa!

E você, concorda que deixar as crianças esperando por vários momentos na rotina é um grande problema nas escolas? Deixe seus comentários abaixo!

Um abraço, Leninha


TAGS: ,

9 Comentários