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Ambiente saudável

A criação de um bom clima de trabalho é a peça-chave da administração de uma escola. Veja como esse fator pode ser melhorado no dia a dia

Gustavo Heidrich

Foto: Helder Tavares
EM prol do ENSINO Ao definir os objetivos e os métodos do trabalho, a diretora Maria José acabou com a rivalidade. Foto: Helder Tavares

Na hora dos intervalos na EE Professor Trajano Mendonça, em Recife, era nítido que existiam sérios problemas de relacionamento entre os professores. Um grupo se confinava na pequena sala reservada a eles. O outro se reunia no pátio. Em comum, apenas a pauta das conversas: falar mal dos colegas. "A escola estava dividida. Havia os que nem se cumprimentavam", lembra a diretora Maria José Baracho, que assumiu a unidade em 1997. A falta de comunicação e colaboração afetava o planejamento pedagógico, o cumprimento de metas e, claro, a aprendizagem dos alunos. "Era raro ocorrer uma reunião que não se transformava em uma interminável troca de acusações."

Esse tipo de situação indica a falta do que os administradores chamam de "clima organizacional". O conceito, que à primeira vista parece estar mais relacionado a empresas, também é imprescindível para a boa gestão escolar, como constatou a pesquisa Práticas Comuns à Gestão Escolar Eficaz, coordenada por Fernando Luiz Abrúcio, cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), a pedido da Fundação Victor Civita (FVC). "As cinco escolas com melhor desempenho investem bastante na criação de um bom clima", destaca. O levantamento, realizado de abril a setembro deste ano, identificou outros três aspectos que fazem a diferença no comando de unidades de ensino (veja quais são eles no quadro abaixo).

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Diante do cenário bélico de sua escola, a diretora Maria José não tinha outra opção senão trabalhar pela paz. Sua primeira atitude foi intervir numa questão de infraestrutura: transformou a secretaria - uma sala ampla que era ocupada por apenas três funcionários - na nova sala dos professores. Sentindo que mais mudanças viriam, um dos docentes perguntou de que lado a gestora ficaria. "Ouvi todos e cada um. Não me posicionei contra nem a favor. Disse que estava ali para colaborar e minha sala estaria sempre aberta", conta.

"Ouvi todos e cada um. Não me posicionei contra nem a favor. Disse que estava ali para colaborar e minha sala estaria sempre aberta."
Maria José Baracho, diretora da EE Professor Trajano Mendonça, em Recife

O próximo passo foi propor um sistema de cumprimento de metas por meio do qual o desempenho escolar seria avaliado. No início de cada ano, a diretora passou a apresentar os resultados (índices de aprovação e evasão, notas em avaliações internas e externas etc.) e a estipular os objetivos, detalhando a função de cada integrante no processo. Até hoje, todas as decisões são registradas em documentos para que as ações sejam acompanhadas e redirecionadas ao longo do ano letivo. "É importantíssimo que os dados sobre a escola circulem entre todos", ressalta a especialista em administração escolar Myrtes Alonso, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Reuniões, grupos de trabalho, murais e até sites ou listas de e-mails são instrumentos aos quais os gestores podem recorrer para facilitar o fluxo de informações entre os membros do grupo.

Os quatro segredos da gestão eficaz

Reprodução
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Além do bom clima organizacional, a pesquisa Práticas Comuns à Gestão Eficaz destacou mais três fatores que fazem a diferença na gestão escolar. São eles: a qualidade da formação inicial e continuada da equipe gestora, a atenção dada às metas e avaliações externas, bem como a forma pela qual os resultados geram mudanças na prática escolar, e, por fim, a capacidade dos gestores em ter uma visão integradora, coordenando as áreas administrativa, financeira e pedagógica para que ocorram avanços na aprendizagem dos alunos. Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores realizaram 152 entrevistas, além de assistir a 15 reuniões de equipes gestoras, 14 encontros pedagógicos e 15 aulas. Das dez escolas que compuseram a amostra, oito eram municipais e duas estaduais, localizadas em quatro municípios paulistas. Leia mais sobre o tema na edição de NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR, que está nas bancas por 5,80 reais.

A equipe eficiente estabelece relações pessoais sólidas

Uma escola boa para trabalhar abre espaço para o debate coletivo. O ideal é que ocorram as tradicionais reuniões de formação continuada, de planejamento pedagógico e com os pais, além daquelas que têm como objetivo a busca de soluções para questões como absenteísmo, indisciplina e dificuldades de aprendizagem. "O entrosamento entre os profissionais reflete a relação que eles têm com a escola. Ao se sentir valorizados, ouvidos e acreditados pela liderança, professores e funcionários tendem a reproduzir essa confiança nos vínculos pessoais estabelecidos no trabalho, criando um bom clima", diz a especialista Myrtes Alonso.

Esses momentos de troca também estimulam o aparecimento de lideranças positivas entre os professores, decisivas para que a equipe de gestão consiga descentralizar tarefas. "O paradigma autoritário está superado. É preciso saber delegar", aconselha Clóvis Roberto dos Santos, especialista em Administração Escolar pela Organização dos Estados Americanos (OEA). Num primeiro momento, o diretor pode achar que o desafio maior é gerenciar muitas frentes de trabalho. Mais que isso, sua atuação é o cerne para a construção de um ambiente de colaboração baseado no estímulo às responsabilidades individuais, que, somadas, facilitam o cumprimento das metas educacionais estabelecidas pela equipe.

Está mais do que claro que o conceito de clima organizacional envolve uma infindável quantidade de relações humanas. Em qualquer ambiente profissional, o importante é que esses relacionamentos estejam baseados em atitudes éticas para que funcionem em favor da aprendizagem. "A escola é o lugar social no qual as diferenças se manifestam. Os gestores precisam entender que elas são parte do fazer educacional", opina a coordenadora pedagógica Sarah Kopcak, mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Ao exercer uma liderança baseada no diálogo, os diretores garantem espaço para a participação dos professores no aprimoramento do processo de ensino e aprendizagem. Com isso, também evitam que se acumulem conflitos mal resolvidos, os quais podem ocasionar o fracasso dos alunos. No médio e no longo prazo, a construção de um bom ambiente de trabalho leva à conquista de uma cultura escolar consistente. E essa vai além do clima: estabelece os princípios da escola e embasa toda atuação da instituição.

Quer saber mais?

CONTATO
Clóvis Roberto dos Santos
Sarah Kopcak
EE Professor Trajano Mendonça, R. Capetinga, s/n, 50910-240, Recife, PE, tel. (81) 3253-1001 

BIBLIOGRAFIA
Gestão Educacional e Tecnologia, Myrtes Alonso, 164 págs., Ed. Avercamp, tel. (11) 5042-0567, 32 reais
Gestão Escolar e Educacional para a Modernidade, Clóvis Roberto dos Santos, 120 págs., Ed. Cengage, tel. (11) 3665-9900, 29,90 reais  

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Publicado em GESTAO ESCOLAR, Edição 227, Novembro 2009.
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