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O estudo que faz a diferença

Como o estudo mudou a rotina de trabalho de três diretoras escolares

Paula Sato

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Em qualquer profissão, a palavra de ordem do momento é atualização. Na Educação não é diferente. No mercado de trabalho, os profissionais apostam nos cursos de pós-graduação e MBAs. Nas redes de ensino, o termo usado é formação continuada. Para todos, inclusive diretores. Afinal, um gestor bem formado faz toda a diferença nos resultados da escola e no desempenho dos alunos. As Secretarias de Educação começam a se preocupar com isso e a oferecer uma formação voltada para os responsáveis pela gestão escolar. Porém não bastam palestras eventuais com consultores que desconhecem a rotina de um diretor. Uma boa formação continuada envolve reuniões periódicas dos gestores com seus pares e com formadores capazes de fazer com que cada um identifique as necessidades de sua unidade e elabore um plano de ação visando soluções para as questões do cotidiano escolar.

Para Tereza Perez, diretora executiva do Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária (Cedac), em São Paulo, bons currículos devem prever o debate sobre o papel da liderança e a discussão de problemas reais: "O trabalho do gestor é transformar a realidade tendo em vista a melhoria da aprendizagem e, para isso, ele precisa saber conduzir bem os processos e mobilizar as pessoas". Importante também é ter foco para não haver o risco de querer tratar de tudo ao mesmo tempo e o conhecimento construído nos encontros ficar disperso e sem aplicação.

A formação da Secretaria Municipal de Educação de São José dos Campos, a 100 quilômetros de São Paulo, existe há seis anos e está estruturada em reuniões semanais, em que os gestores são apresentados a projetos que serão implantados na rede. "O objetivo é que eles estejam cada vez mais envolvidos com a parte pedagógica", explica Fátima Queiróz, coordenadora de Educação Infantil da secretaria. Para isso, a equipe técnica apresenta as ideias aos diretores e argumenta sobre a relevância do tema para a aprendizagem. Os diretores estudam as propostas e cada um faz uma lista das necessidades de sua escola para implementá-lo. Com base nisso, são elaborados os planos de ação. "O mais importante é que o gestor entenda que é responsável pela implantação da mudança, sempre tendo o compromisso com o aprendizado", enfatiza Fátima. A diretora Rita Giovanelli, da EMEI José Madureira Lebrão, percebeu nos encontros a importância de o gestor se aproximar dos pais e, com isso, mudou a maneira de se relacionar com eles (leia o depoimento de Rita no quadro abaixo).

Relação com os pais

Foto: Marina Piedade

"Sou diretora há 17 anos e nunca parei de estudar. Um dos maiores aprendizados que tive nos encontros de formação oferecidos pela Secretaria de Educação foi: é impossível administrar uma escola sozinha. Como gestora, devo envolver toda a equipe, os funcionários e os pais dos alunos. Percebi que os familiares são peças-chave no aprendizado e na melhoria dos resultados da escola. Nos debates com os colegas durante os encontros, fica evidente a importância de conhecer a opinião dos pais sobre as atividades e os projetos que propomos. Por isso, eles são sempre chamados para conversar com os professores e dar sugestões. Quando a família está por dentro do processo pedagógico, ela se sente mais envolvida e disposta a colaborar. Hoje posso dizer que os pais são nossos grandes aliados tanto na parte pedagógica como na social. Alguns até assumem a organização de eventos, como as Festas Juninas. Aprendi que a qualidade do relacionamento com a equipe é fundamental. Investi nas reuniões com os professores e, para eliminar a dificuldade de marcar encontros em horários possíveis para todos - já que muitos trabalham em mais de uma escola -, comecei a promover reuniões à noite e nos fins de semana. Nelas, analisamos os problemas da escola e o significado dos dados sobre o desempenho dos alunos e pensamos em maneiras de aprimorar a prática e buscar melhores resultados."

Rita Giovanelli, diretora da EMEI José Madureira Lebrão, em São José dos Campos, SP

Currículo relevante 

Se o propósito da formação é ampliar o conhecimento sobre a gestão escolar, o conteúdo dos programas tem de estar atrelado às demandas. Ilona Becskeházy, diretora executiva da Fundação Lemann, entidade paulista que trabalha com a formação de gestores, afirma que ouvir os diretores é a maneira mais fácil de detectar que assuntos precisam ser discutidos na formação. Para Sílvia Carvalho, coordenadora executiva do Instituto Avisa Lá, organização não-governamental de São Paulo que trabalha com a formação de educadores da Educação Infantil, as maiores dúvidas estão relacionadas à administração de pessoal. Para as duas especialistas, é imprescindível que a formação aborde as maneiras de encontrar soluções viáveis em condições nem sempre ideais. Se os professores faltam muito, por exemplo, ou se a equipe é pequena, deve-se perceber que o investimento no comprometimento de todos pode trazer resultados.

Outros temas essenciais são a transformação dos espaços físicos em ambientes de aprendizagem, a interação e a articulação da escola com a comunidade escolar - incluindo o relacionamento com os pais - e a concepção da escola como um ambiente de formação para todos. A Secretaria Municipal de Educação de Baixo Guandu, município a 300 quilômetros de Vitória, realiza a formação apoiada em metas anuais. Para 2009, foi elaborada uma lista de objetivos, como a redução da distorção entre a idade e a série e da evasão escolar. Para atingi-los, as reuniões abordaram algumas questões, entre elas as maneiras de melhor utilizar os espaços da escola para expor e valorizar a produção dos alunos. Nos encontros, foram discutidos e elaborados projetos institucionais que foram implementados nas diversas unidades da rede. A diretora Fernanda Justiniano Barbosa, da EMEIEF Aládia Trindade Paiva, investiu no uso do espaço escolar e na forma de divulgar as produções dos alunos para melhorar a comunicação com as crianças. E com isso ela começou a acompanhar mais de perto o trabalho que é desenvolvido nas salas de aula (leia o depoimento de Fernanda no quadro abaixo).

Espaços bem utilizados

Foto: Cacá Lima

"Quando assumi o cargo, em 2006, minha preocupação era somente com a parte burocrática. Eu chegava à escola e ia direto para a minha sala. Perdia muito tempo preenchendo formulários e conferindo documentos. Participar da formação foi fundamental para que eu mudasse o jeito de trabalhar. Afinal, uma diretora responde por tudo o que acontece na escola - e a nossa principal função é garantir a aprendizagem. Hoje, antes de chegar à minha mesa, passo nas salas de aula para conversar com os alunos e professores. Agora, participo das reuniões pedagógicas, ajudo a planejar projetos e atividades, dou opinião sobre os livros que serão lidos pelos estudantes e acompanho de perto as dificuldades dos docentes. Uma das descobertas mais interessantes que fiz durante a formação foi a importância de usar os espaços da escola para que eles também colaborem com o aprendizado. Antes, os avisos eram colocados em qualquer lugar. Instalamos um mural para cada série, que, além de facilitar a comunicação da direção da escola com os alunos, serve também para expor as produções feitas nas aulas. Isso valoriza o trabalho deles e dos professores. Formamos também uma biblioteca e todos os dias reservamos um tempo para que as crianças leiam. Hábito, aliás, que eu também adquiri durante a minha formação."

Fernanda Justiniano Barbosa, diretora da EMEIEF Aládia Trindade Paiva, em Baixo Guandu, ES

Se o que a secretaria busca são mudanças efetivas, o acompanhamento das ações discutidas durante a formação é imprescindível. Para tanto, se faz necessário um diagnóstico inicial dos índices de aprendizagem de cada unidade. Tereza Perez, do Cedac, sugere que periodicamente sejam feitas análises dos dados e visitas às escolas para acompanhar o desenvolvimento das ações desencadeadas após a formação e ajudar nas dificuldades enfrentadas pelo gestor. Em Campo Grande, os formadores da Secretaria Municipal de Educação têm uma planilha com descritores e indicadores de qualidade de todas as escolas para seguir e avaliar o trabalho realizado. Angélica Dias, diretora da EM Padre Tomaz Ghirardelli, compartilha com sua equipe essas avaliações, o que tornou as reuniões de planejamento mais objetivas e participativas (leia o depoimento de Angélica no quadro abaixo).

Atenção ao pedagógico

Foto: Alexis Prappas

"Aguardo ansiosamente as reuniões mensais de formação, pois nelas consigo mergulhar nos estudos que me ajudam a compreender melhor as necessidades da minha escola e a pensar em ações efetivas. No debate com os colegas que enfrentam problemas semelhantes aos meus, pensamos em soluções, transpondo a teoria para a prática e criando planos para melhorar a gestão da aprendizagem. Aliás, esta foi a minha grande lição: a importância de o diretor estar sempre com os olhos voltados para o trabalho pedagógico. Este ano, estamos estudando as fases de desenvolvimento das crianças para repensar as ações desenvolvidas na escola. Volto dos encontros de formação e compartilho os novos conhecimentos com a equipe. Nesse momento, as professoras contribuem muito com a prática e assim conseguimos elaborar projetos cada vez mais interessantes. O resultado é que temos hoje uma equipe em sintonia, que trabalha junto para construir uma escola cada vez melhor. Com essa experiência, mudei também as reuniões de pais: agora, eles são chamados para compartilharmos o projeto educativo da escola. Acredito que a gestão participativa deve ser conduzida como faz um cozinheiro quando experimenta uma receita nova: ele prepara a base, promove a degustação do prato e, com base nas opiniões, acerta os temperos."

Angélica Dias, diretora da EM Padre Tomaz Ghirardelli, em Campo Grande, MS

Os diretores podem solicitar uma proposta de formação continuada das secretarias que ainda não oferecem, já que uma das metas do Plano de Desenvolvimento da Educação do Governo Federal é justamente o aprimoramento da gestão escolar. Sílvia Carvalho, do Avisa Lá, lembra que a secretaria deve se estruturar para que a formação esteja alinhada com a política de Educação do estado ou do município.

Uma boa formação continuada de diretores deve ter:

- Foco na melhoria da aprendizagem dos alunos.
- Conteúdo atrelado às demandas do cotidiano escolar.
- Reuniões periódicas e regulares de diretores com seus pares.
- Currículo que promova debates sobre gestão de pessoas e do espaço escolar e sobre o relacionamento com a comunidade interna e externa da escola.

Quer saber mais?

CONTATOS
Cedac
EMEI José Madureira Lebrão, R. Maurício Maldonado Júnior, 94, 12226-880, São José dos Campos, SP, tel. (12) 3929-2322
EMEIEF Aládia Trindade Paiva, Av. Getúlio Vargas, 112, 29730-000, Baixo Guandu, ES, tel. (27) 3731-1025
EM Padre Tomaz Ghirardelli, R. Lúcia Santos, s/n, 79075-104, Campo Grande, MS, tel. (67) 3314-6351
Fundação Lemann
Instituto Avisa Lá 

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Publicado em GESTAO ESCOLAR, Edição 003, Agosto/Setembro 2009. Título original: A importância da formação continuada para gestores
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